8 de fev de 2017

NUNCA MAIS

imagino,
ela ali, nua, deitada em sua cama
de lençóis sujos... o teto estava amarelado
por infiltrações... mesmo assim, conseguia
não sentir nada por ninguém... de vez em quando
arrumava alguém para saciar seu desejo... era incapaz de amar e se sentir amada... sempre
preferiu as mentiras... as verdades a machucavam...

imagino,
seus vasos sem flores e ela ali
entre um cigarro e outro... não tinha mais força
para chorar e nem lágrimas... de vez em quando
saia para caminhar... os seios flácidos ficavam à mostra no decote de sua camiseta surrada...
as unhas eram grossas, mal feitas e jamais pintadas... nos lábios, ácidos das noites mal dormidas...

ela era
o que a vida queria.

imagino,
ela ali, rondando seu tumulo
esperando a morte
sem pressa enquanto dava seu corpo
a qualquer um que a desejasse... oferecia bebida
e as volúpias de um desejo sem amor...

amou uma vez
e nunca mais
foi amada uma vez
e nunca mais

as paredes
podres
bichos rondando
seus pés nus... o mal cheiro de sobrevida,
ali, naquele quarto escuro... a morte não ousaria
tocá-la e a vida
nela, há tempos deixou de existir.

imagino
seu fim, deitada ali nua,
entre seus lençóis sujos
e seus amantes fétidos
e seus bichos
e sua falta de vida
e sua falta de amor...