26 de nov de 2014

ANTES

antes
de morrer
é melhor
matar
é melhor
deixar
é melhor
esquecer
antes
de viver
é preciso ver
olhar
aprender
a entender
o que há além
antes
da dor
a poesia
depois da dor
lágrimas
esquecidas
antes
do que passou
tua história
depois
memórias
para sempre vivas
antes
de matar
é preciso morrer
algumas vezes
antes do amanhecer
a noite
depois da chuva
a serenidade
antes
de mim
o que era
o que fui
 

QUANTAS VEZES

quantas vezes
se morre
para que enfim
a vida
aconteça
quantas vezes
é preciso
chorar
lágrimas de sangue
antes
que o amor
encontre a gente
carente
depedaçado
entregue
ao caos
a dor
quantas paixões
dilaceram
o pobre peito
o infermo
coração
de tantas angústias
quantas
chuvas
até
que venha novo sol
quantos ventos
quantas vezes
hei de acordar
até acordar em mim

18 de nov de 2014

NÃO MAIS

não mais
não brinco mais
com o amor
não brinco mais
de amar
amor
é veneno
nas entranhas
faz crescer
faz voar
depois
atira
seus dardos
mortais
e faz
despencar
não mais
não brinco mais
com o amor
o amor
é ilusão
dos homens
sua fraqueza
sua desculpa
sua corrente
escravidão
o amor
é morte
sem cura
sem perdão
não mais
não quero mais
nenhum amor
todos os amores
são imbecis
venenos
na corrente sanguínea
dopa
mata
faz de nós
cinzas
que o vento não leva

FOI O AMOR

foi
o amor
que matou
o bom do dia
a noite quente
o verão
que me aquecia
foi
o amor
que desfez
minhas malas
e minhas ausências
foi
o amor
que encheu
de tristeza
minhas alegrias
e me mandou
embora
de mim
foi
o amor
que acabou
com o amor que
havia
foi o amor
que dilacerou
minhas paixões
e meus sonhos
foi
o amor
que me matou
e me empurrou
ladeira
abaixo
foi
o amor
que me prendeu
que me escravizou
que me roubou
que me matou

DESERTO

és deserto
onde as mãos
cansadas
já não alcançam
és a solidão
ainda que transparente
indolor
dor
és amarga
não há
nada
em ti
és vazia
cheia
de um fel
que não me encanta
canta
sua dor
ainda pelas esquinas
que andas
jogada
és a renúncia
o descaso
amargo
és o perto
precipício
és deserto
areia
que seca a boca
que cega os olhos
és vento
que não sopra mais
em mim

ONDE ESTOU

onde estão as ruas
e as avenidas
onde as pessoas
que andavam
machucadas
pela vida
onde estão os bancos
e as praças
e as crianças
os velhos
o destino
a vida
onde estão os amores
as paixões
e as raízes
que não me deixavam
voar
onde estão as histórias
as noites
minhas madrugadas
quantas vezes
perambulei
por ai
à toa
sem nada sentir
sem nada querer
olhando
os becos
as vielas
as putas
sentia-me vivo
sentia-me parte
de um nada que não era meu
onde estão
onde estou

SEM MIM

estou
sem mim
sou apenas sombra
do que fui
estou vazio
com o corpo dolorido
estou estirado
na cama
de uma consciência
suja
e pesada
estou
a beira
de um colapso
me sentindo
sujo
me sentindo
vazio
me sentindo
a deriva
de todos os meus sonhos
e desejos
já não sonho mais
sou apenas
sombra do que fui
estou sem mim
sem sonhos
sem vida
cheio de tudo
e vazio
vazio de tudo o que não mais
me sustenta

TENTANDO

estou tentando sair
não consigo
estou preso
em minhas memórias
estou querendo
viver
minha vida
minhas horas
minhas poesias
estou tentando sair
correr
pelo meu mundo
de encantos
tantos
já não sei mais
se consigo
me achar
já não sei mais
se consigo
me ter de volta
quantos sorrisos
engoli
quantas
lágrimas
sem sentido
quanta dor
por nada
e agora
eu
aqui
preso em mim
tentando sair
tentando
reviver

AQUELE MONSTRO

aquele
monstro dentro de mim
que grita
e insiste em sair
fica
em meus sonhos
em meus dias
de tormento
em minhas horas
que não passam
aquele
monstro dentro de mim
que me deixa
insensível
com a vida
que tento viver
e se despedaça
antes de tudo
antes das madrugadas frias
aquele
monstro
que me deixa
feio
que me faz
calado
e triste
aquele monstro
que não some
que não evapora
e que insiste
em matar
o melhor de mim
aquele sufoco
aquele nó

10 de nov de 2014

COMO SEMPRE

eu ainda amo
amo como sempre amei
amo a vida
amo meu tempo
amo o que vivi
amo os sonhos
que sonhei
amo a história
que escrevi
amo as pessoas
que não me esquecem
amo as pessoas
que passaram
por mim
todas tiveram
de algum modo
importância na minha vida
amo
o sol
a noite
amo
da mesma maneira
o amor
está em mim
como a poesia
para os poetas
amo
meus instantes
ainda que me sinta

ninguém
é eterno
cada um segue seu caminho
e cabe
a mim
seguir o meu
amando
como sempre ameui
sem razão
sem motivos
amar já basta

MEUS OLHOS

olhe
em meus olhos
e sinta
talvez
o que sinto
já não há mais
lágrimas
a dor
há tempos
deixou
de doer
os pés estão cansados
os corpo
endurecido
coração
já não sente
quero apenas
que o dia acabe
que não falte
o pão
a água
e minhas histórias
olhe
meus olhos
não há mais
reflexos
nem sentimentos
sentimentos
são ilusões
que nos matam
aos poucos
o amor
é veneno
que faz a vida valer à pena
ou não

AINDA

decepções
todas
em mim
nos sonhos que tive
na vida
nas limitações
humanas
no descaso
no amor
na paixões
que me jogaram
no chão
nas histórias
que me contaram
na vida
que tive que viver
alegrias
algumas
quando descobri
quem eu era
meus filhos
a mulher que amei
a mulher que me amou
as pontes que construi
e os muros que derrubei
as crianças
que ainda hoje
sorriem
pra mim
esperanças
sim
que ainda haja muitos
amanhãs
que o sol
continue me esquentando
e que eu possa
antes de tudo
abrir meus olhos
e sentir
que ainda estou vivo

ACREDITEI

acreditei
no amor
e me machuquei
acreditei
nas pessoas
e me feri
acreditei
no tempo
e minhas feridas
continuam ali
expostas
acreditei
em sorrisos
e lágrimas
rolaram
caladas
acreditei
em Deus
e fiquei sem respostas
hoje
não acredito
mais em nada
perambulo
por minha existência
até que chegue
o fim
em mim
apenas uma esperança
que a morte
também não me decepcione
ainda
creio que somente
ela
é a verdade

6 de nov de 2014

MAÇÃS

quando
eu era
criança
eu sonhava
ser um príncipe
queria
morar num castelo
e salvar
todas as belas princesas
ai
cresci
e queria
me salvar
das princesas
e de seus encantos
hoje
sou velho
com filhos
e netos
espalhados por ai
princesas?
tive muitas
princesas
rainhas
ou simplesmente mulheres
e todas com
centenas de maçãs
enfeitiçadas
eu comi
um pedaço de cada maçã
por isso
estou aqui
ainda
esperando a morte
que não vem
tendo que conviver
comigo
e com o gosto amargo
do veneno de cada maçã
que mordi

Foto by Lee Jeffries

FRANCISCO

seu eu chamar
moça
quem é que vai
me ouvir
ouvir
o que eu tenho
pra contar
por isso
eu bebo
bebo pra me aquecer
bebo pra esquecer
quem um dia
eu fui
e não se esquece
que fomos
o passado
machuca
é a pedra do sapato
que não se tira
então moça
quem é que olha
pra mim
sou o que ninguém
quer ver
aquilo
que incomoda
quem é que iria
escutar
as poesias que escrevo
ouvir
minhas histórias
meus delírios
quem se importa
em saber quem fui
quem sou
muito prazer moça
meu nome
é Francisco

Foto by Lee Jeffries

NÃO EXISTO

quem sou eu
sou sem nome
sem passado
sem história
sou o esquecido
o incomodo
a ausência
sou a solidão
a tristeza
os dias
de saudade
quem sou eu
flor que não abre
que morre
esquecida
em solo
ressecado pelo sol
sou fadiga
o cansaço
a solidão que incomoda
sou o álcool
a droga
o pior que há
sou o desamor
a descrença
o pesadelo em noite
de lua cheia
quem sou eu
alguém que você não vê
alguém que não existe
pra você

Foto by Lee Jeffries


DE ONDE VEM

de onde
vem a dor
aquela dor
que rasga
o corpo
que dilacera
que faz lágrima cair
de onde
vem e porque
vem assim
o sofrimento
talvez
venha no vento
montado
nas costas
de um cavalo alado
vem pra marcar
pra deixar
em frangalhos
as almas
que vagam por ai
por que a dor
dói assim
nas noites mais frias
e mais escuras
nos becos
e nas ruas
talvez
venha de todos
os maus amores
das paixões
das desilusões
e de todos os sonhos
desfeitos

Foto by Lee Jeffries


TEM GENTE

tem
quem sofra
calado
quem não comente
a dor que sente
e sente só
suas dores
que castigam
a alma
tem gente
que abraça
a solidão
e veste
de luto sua alma
e ninguém vê
e ninguém repara
tem gente
que anda por ai
à toa
buscando nada
por tantas ruas
sujas
empoeiradas
tem gente
que a gente não vê
faz que não vê
que não entende
tem gente
que morre
como indigente
sem casa
sem ninguém
só a terra
e os dias que ficaram

Foto by

Lee Jeffries



4 de nov de 2014

LARGADO

deixaram-me
no passado
deixaram
minhas roupas
minha história
meus desejos
minhas vontades
deixaram-me
sem querer saber
como me sentia
se sentia
o que pensava
o que queria
eu ainda sinto
velho
mais ainda sinto
sinto
pelos dias que se foram
sinto
pelos filhos
pelos amigos
pelo amor
que perdi
deixaram-me
num canto
como objeto velho
e sem uso
estou velho
e ainda
corre sangue
em minhas artérias
e já não choro mais
pelos dias
que virão
todos já fazem
parte do que jamais
viverei
agora
esquecido
largado
abandonado

Foto by

Lee Jeffries


OLHOS

olhos
pra que
pra ver tanta maldade
pra ver um mundo feio
desumano
olhos
pra que
tenho na memória
tudo o que amo
as pessoas
que amo
tenho na memória
o brilho
do sol
a cor da lua
olhos
pra que
para ver
pessoas que amo
indo embora
e me deixando
sozinho
esquecido
não quero ver
já não vejo
tenho tudo que amo
guardado
em mim
e um dia
haverá meu fim
e o fim de tudo o que vivi
e quem sabe
assim
meus olhos
enfim voltem a enxergar

Foto by

Lee Jeffries

SOL

a vida
me fez assim
deturpou meus sonhos
distorceu minhas verdades
e fez de mim
mais um
de tantos pedaços
a vida
me moldou
como bem quis
sem me perguntar
sem me dar chance
de escolher
me empurrou
ladeira
abaixo
e eu rolei
esqueceram de mim
esqueci de mim
sem passado
sem identidade
mais um padaço
entre tantos
esquecidos por ai
a vida
fez o que sou
sou o sol
que jamais se põe

Foto by

Lee Jeffries

VIDA

não sei
o que sentir
tudo dói
dentro de mim
não vejo
alegria
desconheço
a felicidade
desejo
a morte
e o fim dessa
agonia
não sei
de nada
não conheço
a vida
sempre
andei por ai
invisível
aos olhares
alheios
pés descalços
olhar perdido
implorando
por nada
que não seja de verdade
há tanta dor
em mim
que viver
já não me encanta mais...

Foto by

Lee Jeffries

3 de nov de 2014

AGORA

agora
estou aqui
sem acreditar
em quase nada
sem nenhuma paixão
sem nenhuma crença
descrente
no amor
descrente
nos planos que fiz
agora
fico
andando pela casa vazia
recolhendo
meus pedaços
tentando
ainda
me refazer
do estrago
agora
sigo
por um caminho
sem destino
sem saber
o que fazer
e o que pedir
andando
de um lado
para o outro
nesta casa imensa
agora
fico aqui
lembrando
de tudo
de como pude
ser tão volúvel
e ter me permitido
tanto
deixar
que o mal
tomasse conta de mim
agora
fico assim
cada segundo mais velho
apodrecendo

SEM AMOR

sem amor
não existe paixão
não existe poesia
nem razão
nem calor
só frio
só solidão
sem amor
não há amanhã
não há por do sol
nem lua
nem fé
sem amor
não somos mais
do que sombras
ecos
vazios
sem amor
não existimos
e ainda assim
quantos
fingem
que amam
um amor que desconhecem
um amor
que mata
que entristece
sem amor
só há vazio
só há corações
e almas
e mais nada
sem amor

BURACO

seu eu pudesse
me escondia
de mim
do mundo
do tempo
seu eu pudesse
eu virava
bicho do mato
sem passado
sem presente
e sem medo
do futuro
viveria num buraco
bebendo
água da chuva
deixando
que lua
cobrisse
meu corpo
nas noites frias
se eu pudesse
esquecer
quem fui
meu presente
seria melhor
então vivo
olhando minhas cicatrizes
e o tempo
que passou
se eu pudesse
viraria bicho do mato
viveria num buraco
sem pensar
sem me preocupar com nada