30 de dez de 2009

CÉTICO*

não queria
que eu tivesse
me transformado
nisso
logo eu que sou poeta
logo eu que vivo
e acredito na força
e no poder das palavras
me vejo agora
morto
cético
sem crer em mais nada
sem ver mais a beleza
que antes eu via em tudo
estou morto
cético
coração gelado
não vejo mais a mesma
graça que eu via
as pessoas agitadas
correndo
animadas
esperando o ano novo
o que há de novo
no ano que vem
os dias são todos sequências
de todos os dias
vamos envelhecendo
perdendo
tempo
e o tempo não para
passa
e nos deixa
cada vez mais alienados
não queria ser assim
não queria me sentir
morto
queria mais vida
mais alegria
queria voltar a sorrir
queria tantas coisas que perdi
a alegria
logo eu
que sou poeta
logo eu que acredito no amor
logo eu que preciso de amor
me sinto morto
cético

ANARQUISTA DE MIM*

eu sou sim
severo demais
comigo
severo demais
com tudo
não é tudo
que eu aceito
não é tudo que eu permito
não é com tudo
que eu concordo
eu sou sim
chato
pedante
mas não sou injusto
nunca fui
eu sou sim
crítico demais
organizado demais
e definitivamente
um homem sem paciência
mas sei ouvir
só não sei ficar quieto
só não sei me calar
eu sou sim
alguém que decidiu
simplesmente não aceitar
o que foi imposto
alguém sem regras
sem leis
fechado no meu próprio eu
para não estragar
o bom humor de ninguém
eu sou sim
agora
um poeta apaixonado
pela essência humana
apaixonado sempre pela
beleza feminina
que ainda é calmante
em minha vida...
eu sou sim
anarquista de mim

AS MULHERES QUE AMEI*

as mulheres
que amei
eu conto nos dedos
de uma mão
não foram muitas
sabendo
hoje
o que é o amor
algumas
eu gostei demais
outras nem tanto
umas gostaram
de mim
outras nem tanto
mas amar
de verdade
amar aquele sentimento
de pura necessidade
esse amor
que machuca na ausência
esse amor
eu dei para poucas
conto nos dedos
de uma mão
as mulheres que amei
foram as que me enlouqueceram
aquelas que me perturbaram
a alma
aquelas que incendiaram minha vida
aquelas que não esqueço o nome
as mulheres que amei
são as mulheres
que deram para mim
o maior prazer
sem querer
sem cobrar nada em troca
as mulheres que amei
hoje eu sei
conto nos dedos
de uma mão

EU NUNCA*

eu nunca tive amigos
amigos
de verdade
amigos
de muitos anos
amigos
de momentos
sempre que lembro
de mim
lembro-me sozinho
indo por ali
e por aqui
sempre
sozinho
não me lembro
de viagens
e de momentos
não me lembro
das bagunças
mas lembro de pessoas
que passaram
pela minha vida e deixaram
um pouco de si
para mim
eu me lembro bem
de cada rosto
de verdade
eram apenas pessoas
amigos
de verdade
aquele que chega
sem hora marcada
aquele que vem sempre
carregado de sorriso
aquele que não se importa com nada
aquele que vem
e carrega nos braços
amigos assim
eu nunca tive
e também nunca fui

TODOS OS DIAS*

todos os dias
quero acordar
cedo
tenho medo
de morrer dormindo
.
todos os dias
abro bem cedo
a minha janela
rego as plantas
da varanda e escuto
os pássaros cantar
(eu nunca escutei os pássaros)
.
todos os dias
beijo minha vida
abraço
afago
carinho
tenho medo agora
de morrer
agora entendi
o que é viver
.
todos os dias
beijo meus filhos
faço um dengo
um xodó
em minha mulher
e não perco mais
o tempo
lendo as infâmias dos jornais
prefiro assistir
desenho animado
.
todos os dias
caminho pelas calçadas
procurando meus amigos
de infância
todos como eu cresceram
e hoje
como eu
todos os dias
têem medo da morte

NÃO MAIS*

não mais
não me iludo mais
com certas coisas
para mim agora
tão superficiais
.
não mais
não vejo mais
a mesma beleza
que eu via
não tenho mais
a mesma fé que eu tinha
.
estou mais cético
meu coração
mais carrancudo
meu olhar
muito mais sisudo
não mais
não vejo mais
tanta graça
nesse palhaço
vestido de vida
.
as máscaras caíram
o tempo
mudou meu jeito
de ser
de ver
de sentir
não mais
não tenho mais pressa
tenho medo
a vida acaba daqui para frente
mais veloz
.
não mais
não amo mais
como amei um dia
o amor não é mais necessidade
é obrigação

CALADOS*

o engraçado
é ver o tempo passando
e modificando tudo
aquela fúria
da juventude acalma
aquela fome
aquela euforia
de viver vai aos poucos
se apagando
se acalmando
a necessidade de falar
passa
as palavras são mais centradas
devagar
vamos ficamos mais calados
quantos velhos
há por aí
sentados em suas cadeiras
olhando para a vida
pensando em todas as besteiras
ditas
faladas
quantas besteiras esquecidas
engraçado
vendo o tempo
curvando nossas costas
e o silêncio
fechando nossa boca
e como passamos a maior parte
do tempo calados

DEPOIS DE AMANHÃ*

depois de amanhã
não serei mais o mesmo
não contarei
mais os minutos
não terei mais
pressa alguma
depois de amanhã
não farei mais aniversário
e nem mais
contarei os dias
para o final do ano
contarei sim
os dias
para o final da vida
depois de amanhã
não terei mais sede
de paixão
saberei com certeza
que só é feliz
quem ama mais de uma vez
não serei o mesmo
depois de amanhã
meu rosto
receberá os sinais
do tempo
o corpo enfim mostrará
os sintomas da minha pressa
depois de amanhã
muita coisa
deixará de ter importância
cada dia que vivi
cada coisa que aprendi
estarão ainda mais acentuados
depois de amanhã
começarei a mostrar
que fui um bom aluno
não serei mais
o mesmo
depois de amanhã
não haverá mais Natal
apenas Anos Velhos
não serei o mesmo
e nada será igual

29 de dez de 2009

DESPREOCUPADO*

o amor
chegará
o amor
sempre chega
não vou me preocupar
com o amor
nem com a solidão
que me abraça
e me acompanha
o amor
chegará
espero que eu ainda
esteja vivo
espero que eu ainda
possa viver
tudo o que o amor
pode me dar
o amor vai chegar
não vou me preocupar
com o amanhã
que é sempre incerto
vou deixar
a janela aberta
as portas destrancadas
para que o amor
entre
sem bater
vou viver despreocupado
esperando o amor chegar
eu sei
ele chegará
um dia
uma hora

RUAS*

as ruas
estarão sempre
ali
no mesmo lugar
nada muda
e nada mudará
mesmo
que os anos passem
depressa
mesmo que
os anos
demorem para passar
as ruas
estarão
sempre no mesmo lugar
sempre imóveis
sempre caladas
sempre sujeitas
a tudo
passarelas
mais desenhadas
as ruas
sempre estarão ali
fazendo as distâncias
diminuirem
ou aumentarem
as ruas
jamais mudarão
de lugar
estarão ali
unindo
e fazendo almas
se encontrarem
ou não
tantas ruas
sujas
tantas ruas
alamedas
avenidas
tantos conhecidos
tantos desconhecidos
caminhos
idas
voltas
e as ruas

QUANDO VEM*

quando vem
cheia de desejo
deixando
tudo de lado
e me beija a boca
e me rasga a roupa
quando vem
mulher
sem frescura
corpo ainda coberto
com as roupas
do dia
e aos poucos se desnuda
e fica nua
e fica livre
de tudo o que
o dia lhe deu
quando vem
de salto alto
e jeans rasgado
e seios nus
e me beija a boca
e me rasga a roupa
e diz que sou seu
e de mais ninguém
como eu
poderia ser
de outro alguém
quando vem
cheia de desejos
e me joga no chão
e me ama ali mesmo
sem frescuras
sem gracejos

GOSTO DO QUE GOSTO*

gosto do que gosto
não fico
inventando
sei o que me faz
sei que gosto tem
o que eu gosto
eu me conheço bem
gosto do beijo
da boca que conheço
gosto do vento
que sopra todos os dias
nas minhas manhãs
gosto da solidão
que me faz escrever
eu conheço bem a solidão
gosto do que gosto
não saio
das minhas linhas
não saio do meu trilho
sei o que gosto
conheço o gosto de tudo
de tudo o que gosto
gosto de dormir
na minha cama
e não na cama de mais ninguém
gosto dos olhos
que me entendem
e não dos olhos
que desconfiam de mim
gosto das verdades
que invento
e das mentiras
que conto
gosto das minhas poesias
e dos poemas
que leio
gosto da minha vida
assim
exatamente como é

CADERNOS*

todos os cadernos
onde eu escrevera
as minhas fantasias
meus diários
minha vida
eu queimei
tudo ficou
no passado
nas páginas rabiscadas
amareladas
confissões
de quem eu era
confissões
que falavam
de mim
e de como eu
me sentia
os cadernos com tudo
o que era meu
eu rasguei
queimei
não ficou nada
apenas os arames
tortos que sustentavam
as páginas
agora e para sempre queimadas

POR ONDE ANDA*

por onde anda você
será que se perdeu
será que me esqueceu
será que se esqueceu
por onde anda você
e todos os seus gritados
sentimentos
será que tudo morreu
será que era tudo mentira
delírios
fantasias
das suas tardes de solidão
por onde anda você
que não atende
meus chamados
que não está mais
nem no vento que sempre
soprava
por onde anda
tudo o que sempre
dizia
será que era tudo mentira
não me importo
se era
me importo com o que foi
naqueles instantes
por onde anda
você

28 de dez de 2009

CANÇÃO PARA UM DIA QUALQUER*

qualquer dia
quando as pedras
de caminhos diferentes
se encontrarem
.
qualquer hora
quem sabe
quando não houver
mais o que dizer, as palavras nasçam
.
num momento
de lábios ressecados
e de coração quase morto
quem sabe nasça uma nova razão
.
um dia
de um dia qualquer

CANÇÃO QUE NÃO SE CANTA*

nos olhos se sentiu
o que no silêncio se fez
portas fechadas
amor que ruiu
.
nas mãos
sensações das mãos
que se foram
e agora voam por outras imensidões
.
no silêncio
as vozes agora caladas
toda certeza agora
ainda mais
.
portas fechadas
mãos vazias

CANÇÃO DOS OLHOS ESQUECIDOS*

que importa a cor
se castanhos, se negros, azuis
os olhos foram esquecidos
que importa a cor dos olhos
.
ficou o jeito de olhar
as ações do teu querer
teu modo de amar
que importa a cor dos olhos
.
os olhos foram esquecidos
ficou aquele vazio
sem sentido
vazio que não passa
.
qual a cor dos olhos
agora para sempre fechados

CANÇÃO DO AMOR QUE É MENTIRA*

não há culpa
na mentira de acreditar
que não é mentira
esse amar
.
não há como saber
sem saber
sem querer
sem sentir se é amor
esse amor
.
não há erro
descobrir depois
de tudo
de todas as manhãs
que não era amor
.
o amor não mente
nem usa disfarces para amar

CANÇÃO PARA VOCÊ AMOR MAIOR*

não amo mais ninguém
amo você
e só quero lhe amar
até que chegue o fim dos meus dias
.
não há mais nada
amo seu sorriso
sua vida
e nada mais
.
quero lhe amar sempre
lhe fazer feliz
e me fazer feliz
não amo nada mais
.
amo você
isso me basta

CANÇÃO DO PRIMEIRO AMOR*

assim sem rodeios
cheio de laços
cheio de vida
chega derrepente o amor
.
aquele que inquieta
aquele que desassossega
cheio de manhas
chega assim com o olhar o amor
.
aquele que faz sentir a falta
aquele que faz buscar
todos momentos de felicidade
quem completa ou eu ou o amor
.
o primeiro amor
de verdade que fica para sempre

CANÇÃO DA MORTE*

que importa quanta vida tens
a morte espera
debruçada na janela
sorrindo ainda que tardia, bela
.
que importa como vivestes
a morte chega
carregando a vida nos braços
a morte chega ainda que feia, bela
.
há quem tenha medo
há quem sorria sem coragem
a morte que nunca manda mensagens
chega ainda que triste, certa
.
chega ainda que tardia
a morte

CANÇÃO PARA TODAS AS MANHÃS*

vem, abre a janela
respira livre
a vida nesta manhã
tão bela.
.
vem que a vida
passa depressa
olha a vida passando
pela janela
quando se vê já foi
.
acorda, desperta antes
que seja tarde
a vida transpira vida
e a vida passa pela janela
.
quando se quer viver
já foi

CANÇÃO PARA A DOR DE UMA SAUDADE*

choras ainda
calado o peito
na ausência e na dor
do silêncio forte
.
choras ainda
magoado e sentido
o pobre coração
trancado no peito
.
sopras no vento
as lembranças das tardes
de todos os dias
cheios de saudade
.
saudade que cala
que faz doer ainda o peito

CANÇÃO PARA UM AMIGO*

mesmo agora distante
não sinto de longe
tua distância
pois estás comigo
cravado em meu eu
.
passastes de verdade
por minha vida
escrevestes em minhas linhas
toda tua história
.
fizestes o que nunca
ninguém ousou fazer
me amastes de verdade
como ninguém nunca me amou
.
e partistes
sem deixar em mim o vazio

22 de dez de 2009

MAIS UMA VEZ*

mais uma vez
vamos viver
tudo de novo
mais uma vez
por um momento
seremos iguais
mais uma vez
alguma dor
irá doer
e alguma saudade
com certeza
gritará
mais uma vez
iremos
nos lembrar de alguém
esse alguém
não existirá mais
mais uma vez
vamos
procurar um abraço
de braços
que nos façam esquecer
as dores
vividas
toda saudade sentida
mais uma vez
vamos
viver
sem culpas
as culpas
foram deixadas
no ano que passou
vamos
agora sem mágoas
sem erros
mais uma vez
tudo será
apenas mais um passado
mais uma página
virada
mais uma vez
quem sabe
iremos chorar
ou dar boas risadas
mais uma vez
tudo acabou
e ainda estamos vivos

AINDA BEM, É NATAL...*

ainda bem
que resta em nós
um dia
para nos fingirmos
de humanos
ainda bem
que pelo menos
um dia
esquecemos nossas diferenças
e nos fantasiamos
com as mesmas máscaras
e as mesmas
roupas vermelhas
ainda bem
que pelo menos
um dia
olhamos nos olhos
dos outros
e sorrimos
arriscamos até um cumprimento
pelo menos
um dia nos lembramos
de Deus
para agradecer
e não para pedir
lembramos desse tal
irmão Jesus Cristo
ainda bem
que pelo menos o homem
inventou o Natal
como pretexto
para desculpar o que não desculpou
o ano inteiro
pena que acaba
pena que passa
pena que tudo isso
dura apenas um dia

ÁRVORE DE NATAL*

as árvores
murcham
secas
e o que resta
depois
a mesa vazia
os corpos
largados
cansados
de tanto comer
e os restos
de tudo
jogados no lixo
as luzes
ainda piscam cansadas
a cidade
ainda finge
que está tudo bem
fazendo festa
para todos os seus
"Zé Ninguém"
as árvores
depois
vazias
ressecadas
jogadas também no lixo
e as luzes
depois de tudo
cansadas
não piscam mais
papéis
rasgados
presentes trocados
dos amigos
secretos
o sorriso
tantos amigos esquecidos
depois
dias comuns
como sempre
e as árvores de Natal
secas
mortas
e as luzes
depois apagadas

E OS LOUCOS*

e os loucos
trancados
em seu mundo
e as
prostitutas
largadas
em suas imensas
esquinas
e os andarilhos
agora sem trilhos
e os abandonados
os esquecidos
aqueles que dormem
debaixo
das marquises
e as crianças
sem árvores
sem sorrisos
e os viciados
os bêbados
os indigentes
e as lápides
cheias de ossos
e os velhos
aqueles mesmos
que foram espancados
e os leitos
lotados
dos hospitais
e os pais que choram de saudades
e os filhos
que choram seus pais
e os avós
quantas lágrimas
e os que não têem nada
nem mesa
nem sobremesa
e os loucos
trancados
em sua mais linda loucura

SOLIDÃO*

tantas pessoas
vivendo a solidão
tantas pessoas
esquecidas
sem amor
sem casa
sem vida
tantas famílias
destroçadas
e tanta gente
nem aí
como dizia meu amigo
"cada um com seus problemas"
tantas pessoas
presas
em hospitais
e velhos
em asilos
largados em camas frias
e crianças
delinquentes
andando
pelas ruas
enquanto as mesas
estão fartas
não posso fingir
que nada acontece
não posso fazer nada
mas não posso ignorar
os loucos
não posso esquecer
quem agora está
na mais profunda e triste
solidão
largado
esquecido
sou poeta
não um fingidor
como já disse o poeta
e o Natal
o Feliz Natal
passou agora longe de mim
não posso mentir
fingir que nada acontece

21 de dez de 2009

FUGAZ

quem
em sã
consciência
gosta
de amor fugaz
amor
que passa
sem causar dor
quem
é que gosta
de se trancar
num quarto
e sofrer
a vida inteira
por um alguém
que não vale à pena
quem é
que gosta
de ver coração
sangrando
quem gosta de beber
nos cálices quebrados
e cortar a própria língua
não há quem queira
amor fugaz
amor que passe
sem deixar nada
sem deixar dor
sem deixar saudades
quem é louco
de querer
um amor
assim
um sentimento assim
tão vazio
de tudo
rápido
veloz
passageiro
plenamente fugaz

É UM ERRO

é um erro
eu ficar aqui
vendo a vida
por um outro ângulo
é um erro
eu sempre
estar buscando
um amor
que me complete
todo amor
é igual
é um erro
achar
que todo amor
é igual
não é
como não é
nenhum um dia igual
é um erro
ficar
olhando
todo mundo vestido
de sorrisos
eu aqui
aflito
vendo meu rosto
envelhecer
e eu
sem ser nada
é um erro
querer amar diferente
se todo amor
é sempre o mesmo
é um erro
nenhum amor
é igual
exatamente igual
nada é
perfeito
completo
é um erro
achar que poder ser
o que não é
e nem será

ATRAENTE

claro
que exerces
sobre mim
um poder
que nem eu sei
claro
que me sinto
impotente
diante
da tua beleza
que me encanta
claro
que és atraente
e que fascina
e encanta
meus olhos
e o que mais
e o que além disso
o que além dessa atração
basta ser apenas
atraente
basta
apenas causar em mim
torpor
basta me deixar
perdido
sentido tua ausência
e te buscando
sem te encontrar
claro
que me encanta
que exerce sobre mim
fascínio
claro
que és mulher atraente
mas basta
somente isso
talvez
eu queria um pouco mais
de tudo
o que há em ti
que ainda não sei

INCONSTANTE

pode um
dia
o vento
deixar de ser
tão inconstante
pode deixar
um dia
os teus passos
de serem
confusos
será
quem um dia
acertará
qual é o teu caminho
e tua vida
deixará
de ser tão incerta
sei que pousarás
um dia
no doce campo
de verde pasto
e sentirás
ainda mais tranquilo
o vento
que será sempre
o mesmo vento de outros dias
ah
quem sabe
qual melhor caminho
qual a melhor canção
qual o melhor abraço
pode ser
que um dia
o vento
traga todas as certezas
e seu dia
deixe de ser
tão inconstante
como é teu riso
e este teu amor
tão superficial

RELUTÂNCIA

não há
outra
maneira
de dizer
o que sinto
não posso deixar
que as palavras
escapem
sem sentido
se saiam por aí
feito dardos
deve haver
um sentido em tudo
uma direção
não há outra maneira
de ficar
toda relutância
em querer
que o mundo ouça
querendo que o mundo
tenha a mesma voz
e viva sempre
o mesmo amor
não há outra maneira
de entender
de falar
de dizer
posso calar
e morrer
então vou falar
mesmo assim morrerei
um tanto mais feliz
eu sei

19 de dez de 2009

CADA INSPIRAÇÃO

tudo
o que me falam
tudo
o que ouço
de mim
e para mim
transformo
em poesia
às vezes
sem graça
às vezes sem rima
é assim que faço
cada palavra
solta
é uma
cada inspiração
me faz voar
escrever em resposta
porque não posso calar respostas
porque não posso deixar
dentro de mim
dúvidas e um mal
me corroendo
tudo o que ouço
cada palavra
cada inspiração
algo que me move
o que me impulsiona
o que falam
modifico e faço
poesias
transformo as pedras
em pétalas de rosas
cada palavra
cada inspiração

MONÓTONA

queres
saber de mim
saber da minha vida
saber como e
por onde andam meus passos
eu te digo
não
não penso em me separar
e nem monótona
é minha vida
mesmo sem sair pra dançar
mesmo sem dinheiro
sou feliz
de um jeito que jamais
irá saber
sou feliz
todos os dias
por ver o sol
por conseguir ir no banheiro
e ver meu rosto
no espelho
queres saber de mim
e te digo sem medo
não troco minha vida
nem minha felicidade
nem meus dias
tenho tudo
o que preciso
para ser feliz
com quem amo
e comigo

FAZER AMOR

fazer
amor
não é só
possuir o corpo
que alucina
fazer amor
é também andar
de mãos dadas
é fazer de vez
em quando o almoço
é de vez
em quando lavar a louça
esperar
pra jantar
com um buquê de flores
fazer amor
não é apenas um ato
de cinco minutos
nem de dez
muito menos de um
fazer amor
é um ato
que dura a vida toda
é ação
é querer estar
é sentir o que o outro fala
com o olhar
fazer amor
não é fazer sexo
sexo
é a apenas
a tradução
mais clara do desejo
que causa o amor
fazer amor
é olhar sempre nos olhos
é ouvir sempre
o que a voz tem pra dizer
é sempre
se colocar no lugar do outro
fazer amor
é viver o amor
todo dia

INCITANDO

eu escrevo
sempre
na primeira pessoa
porque
sou que sinto
sou eu que sofro
aqui calado
eu escrevo
o que penso
o que vem por mim
como sopro
às vezes
quieto
deitado
dormindo
e as palavras
devagar incitando
sentidos
fazendo de mim
o que sou
escrevo a minha dor
a minha história
o que vivo
o que sinto
e o que não sinto
escrevo como vejo a vida
e o amor
que sinto
não posso mentir
já menti demais
escrevo sempre
meu eu
na primeira pessoa

TEMPESTUOSO

ah
amor
esse
que marca
que fica
amor tempestuoso
de nada
nada
além de nuvens
ah
amor
que deixa
calado
em ardente
febre
coração iludido
coração
que não sabe de nada
coração
que sofre
à toa
ah amor
amor tempestuoso
que mechuca
sem querer
que deixe
a boca ressecada
coração ressentido
que traz incertezas
e o medo
que faz dos sonhos
pesadelos
ah amor
tempestuoso amor
de um só
momento
amor
que passa
e marca
e faz chorar
amor
que vai embora
e deixa
no ar a culpa

TOLERÂNCIA A DOR

nunca tive
tolerância a dor
meu coração
sempre
foi frágil demais
fui educado
para o amor
aprendi amar
amando
nunca suportei
nada que me machucasse
sempre
tive coração frágil demais
nunca
tive nenhum prazer
em ficar sozinho
curtindo
as dores da solidão
sou fraco
demais
sem nenhuma
tolerância a dor
não gosto
de expor
o que sinto
não gosto de deixar
escancarado
minhas verdades
gosto de passar
desapercebido
gosto de segredos
de sentimentos guardados
detesto
dor
qualquer tipo de dor
pior ainda
a dor de amor
que não passa

18 de dez de 2009

LENTE DOS POETAS

tudo
o que há
de melhor
de mais bonito
de mais intenso
está por trás
da lente dos poetas
todo poeta
que se preza
usa óculos
se não usa
deveria usar
os óculos
mostram
muito mais
do que o corpo
decifra a alma
a lente dos poetas
vê bem mais além
vê a cor da aura
vê a beleza escondida
atrás
daquilo que ninguém mais
quer olhar
o poeta vê alegria na dor
homem comum
é capaz
de sentir
mas não de ver
não de entender
não de se entregar
todo poeta que conheço
usam óculos
se não usam
deveriam usar
tudo
o que é mais intenso
tudo o que há de melhor
está
atrás
da lente dos poetas

SOLIDÃO DOS MEUS DIAS

a solidão
dos meus dias
já não me assusta mais
fiz dela
parte de mim
parte dos meus dias
onde
falo com as paredes
que não reclamam
o piso
de onde fico
está gasto
a janela
que me confessa a rua
está suja
e eu sem coragem
para levantar
e tirar a poeira de mim
a solidão
dos meus dias
das minhas quases noites
das minhas camas vazias
não me fazem mais chorar
nenhuma solidão
me machuca mais
deito
e falo com os travesseiros
conto
dos meus sonhos
falo dos meus fracassos
e da minha falta de sorte
no amor
a solidão
dos meus dias
de sol
não ajudam a esfriar
com mais rapidez
o café
esfria sempre no mesmo tempo
sem pressa
a solidão dos meus dias
está em mim
e já não dói mais
há tempos

DOM DE MULTIPLICAR

quero
ter o dom
de multiplicar
multiplicar
o amor
que sinto
o amor
que tenho
quero
escrever
ainda mais poesia
pixar poesias
nos muros
sujos
de sangue
nos chãos
sujos de poeira
quero
ter o dom
de multiplicar
apenas os bons sentimentos
as boas idéias
quero dividir
apenas
o amor
para que o amor
cresca ainda mais
em mim
eu conheço
o que fazem os maus pensamentos
eu sei
o que é andar na escuridão
eu sei
o que é precisar
de uma palavra
e encontrar
somente
pedras
farpas
espinhos
quero multiplicar
todo o amor que tenho
escrever
cada vez mais
poesias e cada vez mais
plantar
por onde passo
as sementes
do amor
que tenho guardado em mim

BEM MELHOR QUE A CULPA

melhor
pedir perdão
desculpas
qualquer coisa
é bem melhor
que a culpa
melhor
não arriscar
errar
muito menos
não ter a certeza
de acertar
qualquer coisa
é bem melhor
que a culpa
melhor deixar
passar
melhor calar
do que falar besteiras
melhor esperar
do que correr
sem ter onde chegar
qualquer coisa
é bem melhor que a culpa
melhor
deixar que a noite
chegue
"todos os gatos parecem pardos"
melhor
ficar onde está
melhor deixar
a sombra chegar
e o vento passar
melhor mesmo é não julgar
é não apontar erros
defeitos
melhor é ficar calado
qualquer coisa
é bem melhor que a culpa

DEPRESSA DEMAIS

teus olhos
passaram por mim
depressa demais
não houve tempo
para que eu pudesse
me ver refletido neles
.
teu tempo
passou
depressa demais
te levou
para frente demais
onde jamais eu pudesse
te ver
e te deixou alí
parada
.
passei
por ti
depressa demais
te deixei para trás
te deixei
a contemplar
o vazio
dos meus passos
que ficaram
.
a vida
passou por nós
depressa demais
separou
nossos olhos
levou para longe
nossos passos
nossa mesma manhã
de sempre
.
entre nós
tudo passou
depressa demais
o tempo
a vida
e os olhos
que não se olham mais
há tempos

OLHAR DEVAGAR

quero
olhar devagar
o meus olhos
nunca viram
quero
olhar devagar
o horizonte
desse novo dia
ainda
escondido
tímido
por natureza
não quero assustar
e não quero
me assustar
com nada
quero
caminhar nessa longa estrada
como se fosse
um estranho
um gafanhoto
uma lagarta
quero olhar devagar
minha estrada
para que meu coração
não morra de medo
quero
abrir meus olhos
devagar
e contemplar
a imensidão
do que ainda não conheço
quero olhar devagar
sempre
para o riso que me alimenta
e ficar nesse riso
por muito tempo
vou olhar devagar
tua beleza
em mim contida
e viver
sempre
a alegria dessa vida
e contemplar
a grandeza
dessa minha estrada
dessa minha vida

MEUS OLHOS

meus olhos
tão cansados
quase
cegos
já quase não vêem mais
a beleza
expostas
das estrelas
que já não brilham
mais no céu
há um véu
que cobre meus olhos
que cobre o céu
de vergonhas
que meus olhos
quase cegos
já não vêem mais
não há mais
a beleza que havia
nem mais
o mesmo encanto
que havia
nem mais
a mesma beleza
meus olhos
cansados
do mesmo
da mesma mesmice
de sempre
já não olham mais
para o amanhã
terra de sonhos
meus olhos
não crêem mais
no que já não vêem mais
de tão cansados
dessa falta
do que já não é mais belo
já não há mais
a mesma beleza
que havia
e meus olhos quase
cegos
agora cansados

NESTE INSTANTE

neste momento
hás tempos

não me sinto
mais sozinho
neste momento
em que o dia
nasce
sem a mesma rebeldia
de antes
não me sinto
mais
um qualquer andando
por aí
há sempre
um novo sol
um novo sorriso
um novo despertar
em minha vida
há sempre
um motivo a mais
tantos motivos
neste momento
há vida
demais
brotando
em cada sonho ainda vivo
e ainda vivo
cada vez mais vivo
mesmo que a morte
venha levemente
já não a temo
a vida escorre
por todas as minhas veias
já não me sinto mais
sozinho
neste instante
em que o sol
mais uma vez nasce pra mim
amém

ACONCHEGA

aconchega
teus olhos
em meus olhos
teu corpo
em meu corpo
tua boca
em minha boca
aconchega
teu coração
em meu coração
e sua vida
em minha vida
teus dias
de confusão
em meus dias de paz
aconchega
teu peito
na calmaria
do meu mar
deixa minha leve brisa
soprar na tua face
deixa esse meus vento
levar
e jogar fora
todo teu tormento
aconchega
em mim
e esquece tudo
aquilo que passou
passou
já não importa mais
a dor
aconchega
em mim
tuas dores passadas
para que tudo passe de vez
enfim

MIRA DO TEMPO

escravos
de um tempo
que não é meu
nem teu
a mercê
do que a vida
nos impõe
sem regras
escravos
na mira do tempo
que vai devagar
corroendo
nossas memória
e apagando
de nos
parte
da nossa história
um tempo
que não é meu
nem seu
nem de ninguém
um tempo
que passa
que vai deixando
na pele
suas marcas
sem olhar a quem
escravos
de nossas próprias
consequências
inconsquentes
quanto mais abusamos
da vida
mais o tempo
nos faz escravos
de nós
e cada vez no deixa
na mira do tempo
que voa
roubando de nós
nossos melhores dias